Vou de Bike, você sabe…

 em Urbe

Roberta Brum, de Amsterdam

O verão europeu tem sido bastante quente este ano. Ainda assim, os holandeses não deixam de pedalar para ir ao trabalho. Na última vez que estive aqui, passei o mês inteiro de janeiro, a temperatura variava em graus negativos. Ainda assim eles iam de bicicleta não só para o trabalho, como para qualquer lugar. Nestas duas ocasiões fiquei extremamente surpreendida. Parece que usar a bicicleta é uma coisa tão incorporada que o fazem no automático, mesmo que “chova canivete”.

Aqui, 31% das pessoas enumera a bicicleta como principal meio de transporte para as atividades diárias, número que pode chegar a 59% como na cidade universitária de Groningen.

As ciclovias cobrem cidades e estradas e muita gente se desloca de uma cidade à outra também em bicicleta. Carregam as mesmas dentro dos trens, ônibus e metrô e as estacionam nos lugares mais inusitados. Sempre me perguntei se as pessoas andam mais de bicicleta porque a infraestrutura é boa, ou se porque elas andam muito de bicicleta, foram desenvolvidas boas vias. Aquele velho slogan de biscoito “trakinas”… A verdade é que é um pouco dos dois.

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História

Andar de bicicleta tornou-se popular na Holanda um pouco mais tarde do que nos Estados Unidos e Grã-Bretanha que experimentaram seus booms na década de 1880. Entretanto, nos anos 1890 os holandeses já estavam construindo ciclovias. Em 1911 o número de bicicletas per capita na Holanda já era maior do que em qualquer outro país europeu.

Após a Segunda Guerra Mundial, o carro tornou-se mais acessível e a bicicleta começou a ser esquecida. Esta tendência só começou a ser retardada na década de 1970, quando os holandeses tomaram as ruas para protestar contra o alto número de mortes de crianças nas estradas. Este juntamente com outros fatores tais como a escassez de petróleo viraram do avesso a política do governo holandês que começou a restringir automóveis nas vilas e cidades e a direcionar o foco no crescimento de outras formas de transporte.

Bike-friendly

Quando falo em infraestrutura, quero dizer ciclovias, interseções protegidas, estacionamento onipresente e rotas de ciclismo mais curtas, mais rápidas e mais diretas do que as de carro. No campo, um número crescente de ciclovias intercidades conecta a Holanda. Alguns desses caminhos são parte da Rede de Ciclismo Nacional Holandesa, feita para o turismo de bicicleta que atinge todos os cantos do país.

Enormes estacionamentos são comuns em torno do país com capacidade para milhares de bicicletas que se amontoam em estruturas metálicas mecânicas que abaixam até o chão e logo sobem, economizando espaço – pra caber mais mesmo, porque acredite, são muitas. Para nós, estes estacionamentos são excêntricos;  um mix de obra de arte moderna com ponto turístico (o que sempre vale uma selfie).

Além da infraestrutura, soma-se a isso uma cultura “bike-friendly”: as necessidades dos ciclistas são tidas em conta em todas as fases do planejamento urbano. Outro exemplo: o uso do capacete na bicicleta não é obrigatório. O Fietsersbond Holandês (Associação de Ciclistas) concluiu que para o ciclismo diário, a obrigatoriedade teria um impacto negativo sobre a saúde da população.

A Holanda é um país relativamente densamente povoado e muito plana, o que significa que as distâncias de viagem tendem a ser curtos, até mesmo entre cidades. Isso, somado ao clima fresco ajuda a evitar o suor.

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Futuro

As novas gerações continuam a ensinar seus filhos a “dirigir” uma bicicleta desde pequenos e a tendência é que a adesão cresça. “Antes os adolescentes ficavam excitados em ganhar uma moto no aniversario de 16 anos. Estive preparada para comprar uma para minha filha e ela não quis. Hoje, eles já não se importam com isso”, conta Margaret Hill, diretora executiva.

O futuro energético do país e a bicicleta também pedalam na mesma direção. Ano passado um delicado acordo foi assinado para estabelecer alvos claros para uma transição até uma sociedade livre de combustível fóssil.

Neste pensamento, a ciclovia que liga os subúrbios de Amsterdã Krommenie e Wormerveer tem um trecho de 70 metros que se tornou a primeira via pública do mundo, com painéis solares incorporados. Custando cerca de 3 milhões de Euros (R$ 11 milhões) e financiado maioritariamente pela autoridade local, a estrada é composta de linhas de células solares de silício cristalino, encaixada dentro do concreto e cobertos com uma camada translúcida de vidro temperado. O projeto fará que em um futuro próximo a energia produzida seja capaz de alimentar os sinais de trânsito, por exemplo.

Brasil

Enquanto isso no Brasil, caminhamos a passos lentos na introdução real deste meio de transporte. Em São Paulo, a ciclovia da avenida Paulista foi polêmica pela suposta falta de planejamento na implementação das obras e o alto custo delas, R$ 12,2 milhões, segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

Em Brasília, para incentivar e promover a bicicleta como meio de transporte, a campanha “ De bike para o trabalho” conseguiu reunir timidamente cerca de 200 pessoas em um movimento promovido por ONGs.

No Rio, é a prefeitura quem quer incentivar o uso da bicicleta no trajeto para o trabalho.

Lá mesmo na Cidade Maravilhosa o visionário engenheiro Abelardo Araujo Lima idealizou o Bike Rio Café, que oferece o serviço de estacionamento e banho no centro da cidade. Passada a euforia da ideia, ele já reconhece que é um mercado ainda sem reconhecimento e de pouca adesão.

Em Goiânia a ciclovia avança com trechos interrompidos e um projeto novo que recebe críticas por ignorar o estudo original.

 

 

 

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