Vicente Caraíba expõe escultura e pintura digital na Alemanha

 em Comportamento, Goiás

Via: Jornal O Hoje

O designer Vicente Augusto Fleury Umbelino de Sousa começou a caminhar pelo Cerrado para dar um tempo do computador. Ao longo dessas caminhadas, recebeu um “chamado” da vida escondida nos campos destruídos para a plantação da soja e para a formação de pasto. Assim começa a trajetória do artista goiano Vicente Caraíba, que expõe 22 esculturas e conjunto de pinturas digitais, entre 21 de maio e 15 de junho de 2015, na Schleswig-Holstein-Haus, em Schwerin, na Alemanha, com apoio do Fundo Estadual de Arte e Cultura.

Schwerin é a menor capital alemã, no entanto, referência em arte naquele país. A exposição Espírito Cerratense começou a chamar a atenção do público internacional, durante o Fica 2014. Com extraordinária sensibilidade, o trabalho é bem-sucedido em associar aspectos estéticos e conceituais, em uma obra que denuncia o processo de extinção do Cerrado brasileiro, um dos biomas mais ricos do mundo.

Segundo o escultor, desde o princípio a obra revelou capacidade de provocar emotividade, em público de perfil diverso, a partir de associações do trabalho com histórias particulares. O escultor se lembra do dia em que um cineasta estrangeiro visitante da exposição, na Cidade de Goiás, começou a olhar cada uma das peças e a tocá-las, até parar em frente a uma delas permanecendo por muito tempo. “Finalmente, ele se virou para mim, com aqueles olhos azuis marejados, e falou: ‘Il legno é vivo!’ (A madeira está viva!). Sorri e disse a ele: por isso eu trabalho com ela”, conta.

Ironicamente, o material utilizado por Vicente Caraíba é o que chamam de “madeira morta”, ou  seja, restos de árvores que são derrubadas em nome do progresso, todas elas encontradas em suas caminhadas Cerrado adentro. “Quando acho um tronco ou descartes da construção civil, nunca sei o que ele vai ser, ou melhor, o que ele quer ser. Sei que vou trabalhar com ele e vamos ver no que vai dar. Não tenho um fim em mente, tenho uma busca”, descreve.

A técnica que vem sendo desenvolvida pelo artista começa na busca da matéria-prima. As peças não têm grande porte porque Caraíba trabalha com o que consegue carregar. Ele leva para seu atelier, localizado na Cidade de Goiás, troncos que sugerem imagens diversas incrustadas. “Para mim, cada peça é um ser que se comunica e eu sou apenas um mensageiro”, comenta o artista, que utiliza diversos tipos de formões, goivas e máquinas cortantes de pequeno porte para intervenções superficiais na madeira.

Consciência crítica

Além do resultado estético possibilitado pelas peculiaridades da madeira, o desafio do artista é impactar o ser humano, estimulando expansão de consciência crítica. No entanto, Vicente Caraíba não se considera um ambientalista. “Quando ouço essa palavra, sou remetido a uma posição meio radical e não consigo ver o mundo assim, preto no branco, não mais. Não me vejo amarrado a uma árvore pregando contra o mundo moderno”, assume. E completa: “Vejo um mundo onde temos muito a aprender, onde o Cerrado tem muito a ensinar. Podemos fazer diferente, destruir menos e respeitar mais, é o que busco em minha vida”.

Para Caraíba, a mensagem que Espírito Cerratense leva ao mundo não se limita à reflexão sobre a extinção anunciada do bioma que guarda dois quintos de toda a água potável do planeta Terra. A poética da obra carrega ainda mensagens sutis sobre o amor, o respeito e a paz. “Meu trabalho traz o questionamento de uma vida inteira, vejo formas que desaparecem, vejo um imaginário individual, vejo que não cabe a mim definir aquilo que não tem definição, vejo que não preciso saber o resultado de algo, mas que preciso ir em frente”, ressalta.

 Tecnologia

O trabalho que busca se aproximar ao máximo do estado natural, apresenta sua faceta tecnológica como algo indissociável para Vicente Caraíba. Há mais de 20 anos, o artista opera computadores profissionalmente e, para ele, os softwares são, simplesmente, ferramentas que se assemelham aos formões.

A partir da experiência como escultor, de repente, ele se viu desenhando cores e formas para compartilhar uma visão mágica experimentada no contato íntimo com o Cerrado. “Meu trabalho com a madeira e com a pintura digital é deixar para trás o controle, deixar que cada peça seja o que ela quiser ser, deixar que cada quadro seja o que ele quiser ser e assumir o meu papel de pica-pau, de mensageiro”, arremata.

 

 

Serviço:

Exposição ‘Espírito Cerratense’, de Vicente Caraíba

De 21 de maio a 15 de junho de 2015

Schleswig-Holstein-Haus, em Schwerin, Alemanha

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