Por que a promessa de descarbonização do G7 não combina com o mundo real

 em Política

Na última segunda-feira, os líderes do G7 arrancaram aplausos da comunidade internacional ao produzirem uma declaração política na qual se comprometem, pela primeira vez, a descarbonizar suas economias “ao longo deste século”. Enquanto gesto político, o comunicado cumpriu seu objetivo: estamos a seis meses da conferência do clima de Paris, e um aceno dos países mais ricos do mundo na direção certa ajuda a animar o evento. É importante para desanuviar uma negociação sabidamente difícil, então o valor do que foi dito pelos líderes não deve ser menosprezado.

O problema com o compromisso do clube dos ricos, porém, é que ainda padece de uma desconexão com o mundo real, o mundo dos investimentos ainda maciços em energia fóssil. Quando se vê, por exemplo, que o Ártico acaba de ser aberto à exploração de petróleo. Ou quando se olha o que está sendo investido no mundo inteiro na exploração de novos campos de óleo e gás e na construção de novas usinas fósseis. Não se pode dizer que isso combina com a declaração do G7.

Para entender o que significa uma promessa para os próximos 85 anos, pense no que aconteceu com a humanidade nos últimos 85. A Segunda Guerra Mundial, com todas as mudanças que trouxe para a demografia, a geopolítica e a economia mundial, não havia acontecido. Não existia energia nuclear, e Alan Turing, o pai dos computadores, era um adolescente. Se, digamos, o chanceler de Weimar fizesse em 1930 uma promessa tão radical quanto reformar o sistema energético do mundo até 2015, seria de esperar que alguém perguntasse que passos intermediários ele pretendia dar até lá. É a primeira pergunta que se deve fazer aos líderes do G7 sobre seu anúncio: como pretendem chegar ao seu objetivo? Quais são as políticas e medidas concretas a serem implementadas? Quais são metas intermediárias a serem alcançadas em 2030, 2040 e 2050?

É muito difícil prever como o uso de energia evoluirá até o fim do século.  A IEA (Agência Internacional de Energia) traçou projeções até 2040, em três cenários. O primeiro é o das políticas atuais, que assume que nada mais será feito além das medidas formalmente adotadas até meados de 2014. O segundo cenário é o das chamadas “novas políticas”, que incluem medidas que estão sendo discutidas pelos países, mas que ainda necessitam trabalho adicional para sua efetiva formalização. O último é o cenário mais ambicioso, que toma como referência a estabilização da concentração de CO2 na atmosfera em 450 ppm (partes por milhão), o nível considerado seguro pelo IPCC. Este último cenário inclui, entre outras medidas, a “precificação” do CO2 e a remoção de todos os subsídios para combustíveis fósseis.

Como evoluem os combustíveis fósseis nos três cenários da IEA? De forma pouco inspiradora para o compromisso assumido pelos líderes do G7: atualmente, 82% da energia do consumida no mundo é de origem fóssil – carvão, petróleo e gás natural. No cenário otimista da IEA, em 2040 estas fontes ainda estarão suprindo quase 60% da demanda mundial de energia.  Em dois dos três cenários, o consumo de carvão continua aumentando. A participação dos combustíveis fósseis na matriz energética dos EUA ainda seria da ordem de 57% no cenário mais ambicioso e 79% no cenário de manutenção das políticas atuais.  No caso da União Europeia, estes combustíveis ainda seriam responsáveis por suprir de 47% a 70% da demanda de energia, dependendo do cenário considerado.

Se, em 2040, o cenário mais ambicioso da IEA se concretizar, ainda assim é possível imaginar o esforço adicional a fazer nos 45 anos seguintes para zerar o uso de combustíveis fósseis até o fim do século. Atualmente, com raríssimas exceções, os combustíveis fósseis ainda reinam absolutos na geração de energia elétrica e nos sistemas de transportes mundo afora. O compromisso do G7 pressupõe uma transformação profunda nestes setores. Se levada a sério, e espero que o seja, a proposta do G7 pressupõe um nível de intervenção e alteração da realidade que vai muito além do que está sendo discutido hoje.

Para dar uma ideia do desafio, o plano de redução de emissões do presidente Barack Obama – Climate Action Plan,  considerado bastante ambicioso e que enfrenta resistências no ambiente político dos EUA, se encaixaria no cenário de “novas políticas” da IEA, no qual os combustíveis fósseis chegariam a 2040 respondendo por mais da metade da energia consumida no país.

É muito bem-vinda a proposta de abandonar o uso de combustíveis fósseis pelo G7, mas, para ser levada verdadeiramente a sério, será preciso aguardar a apresentação do calendário do desmonte.

Entre as tarefas a cargo da sociedade civil, está o monitoramento dos indicadores adequados dessa transição. Olhar para o planejamento de longo prazo dos países com o intuito de buscar a materialização dos compromissos assumidos. Entender como as indústrias automobilística, carbonífera, petrolífera e outras interpretarão e reagirão aos compromissos dos líderes do G7 e observar em que medida isto vai alterar os futuros planos estratégicos das grandes corporações que operam nestes setores. E chamar a atenção para a seguinte realidade: ainda são consideráveis as reservas existentes de combustíveis fósseis no mundo, especialmente de carvão; mas não vai dar para tirar isso tudo do solo e viver num planeta saudável ao mesmo tempo.

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