O Rio São Francisco pede socorro

 em Goiás

“A situação do rio São Francisco é preocupante”. Quem afirma é Anivaldo Miranda, presidente do comitê da bacia deste que é um dos mais importantes rios do Brasil. Participante ativo das discussões que ocorrem no 17º Encontro Nacional dos Comitês de Bacias Hidrográficas (Encob), realizado nesta semana em Caldas Novas, Anivaldo explica que a disponibilidade de água na bacia do rio começou a piorar em 2013, atingindo diversas regiões fisiográficas da bacia, o que refletiu nos afluentes mineiros e baianos. “Isso causou reflexos nos reservatórios hidrelétricos, gerando conflitos e afetando outros usos da água, com sérios impactos no ecossistema”, explica.

Tanto o rio quanto a bacia, diz, dependem da região do Alto São Francisco, situado em Minas Gerais. O mesmo ocorre com as bacias dos rios Grande, Doce e Paraíba do Sul, que abastecem grandes regiões metropolitanas e grande parte do PIB brasileiro. “O que ocorre em Minas Gerais repercute em toda a bacia do São Francisco”, declara. O rio atravessa o semiárido nordestino e fornece 70% da região Nordeste. “Apenas 3% da água disponível no Brasil está no Nordeste”, informa Anivaldo.

Em função da estiagem, os reservatórios estão baixos. O reservatório de Sobradinho, em Minas Gerais, tem trabalha com apenas 9% de sua capacidade, o que afeta diretamente o reservatório de Três Marias, a jusante de Sobradinho, na Bahia. A situação tem gerado um forte conflito no setor elétrico, exigindo que a vazão de sobradinho tenha que aumentar para suprir a necessidade do reservatório de Três Marias. “Os outros usuários que estão abaixo de Sobradinho querem que a operadora do reservatório utilize seu volume morto, para diminuir os danos ambientais causados pelo baixo nível do rio”, comenta.

Transposição

“A transposição do Rio São Francisco foi imaginada para uma situação bem mais favorável do que a que vemos agora”, afirma o presidente do Comitê da Bacia do São Francisco, Anivaldo Miranda. Ele explica que se o reservatório de Sobradinho não estiver acima de 94% de seu volume útil, os canais da transposição só poderão levar 26 m3/s de água, enquanto que a capacidade prevista era de 127m3/s. A má notícia é que a situação deve piorar, com agravamento desta estiagem e de outros períodos de seca que devem ocorrem com mais frequência.

Outra má notícia é que os canais que estão sendo construídos pelo Governo Federal necessitam de obras complementares dos governos do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco para, de fato, fazer com que a água chegue às torneiras. “Ninguém sabe quando tudo ficará pronto. Os custos são altíssimos. Será preciso muita energia para subir a água até os pontos de captação e ainda não sabemos quem vai pagar essa conta”, alerta.

Anivaldo  diz ainda que o Comitê da Bacia do São Francisco sempre se posicionou contra a transposição do rio. “Sabemos da necessidade de abastecimento para milhões de pessoas, mas o projeto é mal conceituado, mal planejado e mal executado”, dispara. Os estudos técnicos mostram que há outras alternativas, a exemplo de adutoras que poderiam suprir boa parte da demanda do semiárido nordestino, a um custo muito menor. Todavia, Omo as obras já estão avançando, o comitê da bacia aceitou o convite para participar do Conselho Gestor da transposição, com objetivo de garantir os termos da outorga concedida, que prevê apenas 26m3/s quando o reservatório de Sobradinho estiver abaixo de 94% de seu volume total. O comitê também quer garantir o uso racional das águas do São Francisco e fazer com que as bacias receptoras dessa água sejam integradas às ações de preservação do velho Chico. “Todos os beneficiários têm que se engajar na revitalização do São Francisco”, ressalta, lembrando que a promessa do Governo Federal era de que, para cada real investido na transposição, outro real iria para a recuperação do rio, o que nunca ocorreu.

A região leste de Goiás faz parte da bacia do São Francisco, assim como o Distrito Federal e os estados de Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas. O comitê trabalha para criar um grande pacto das águas e revitalizar a bacia, estabelecer volumes de alocação das águas dos afluentes, diversificar a matriz energética e promover um modelo de desenvolvimento sustentável que integre os projetos do Governo Federal, estados e os segmentos econômicos e sociais  usuários da bacia.

Fotos: Divino Luís

Brenno Sarques | Secima

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