“O Brasil está sendo repensado e isto deve levar um tempo”

 em FICA

Arnaldo Jabor é crítico, e não me refiro a profissão, mas por natureza. Sua forma de ver o mundo é intrigante e sua expressão sobre o mesmo leva o ouvinte a reflexões sobre a vida, a arte, relacionamentos e política. Talvez por isso seu nome seja um dos mais cotados nos textos da internet. Curiosamente, a maioria deles não são de sua real autoria. Em exclusiva ao Goiás mais 20 ele comenta o fenômeno em que muitos textos são atribuídos a ele. “As pessoas me param na rua e dizem por exemplo ‘adorei aquele texto que você diz que as mulheres tem que ser boazinhas para o marido.’ Eu nunca escrevi isso e as pessoas ficam meio ‘putas’ quando eu digo, mas eu nunca escrevi estas porcarias. Eu não sei porque colocam meu nome. Quase tudo que está na internet é falso”.

A verdade é que se trata de um grande formador de opinião e sua interpretação é sempre requisitada, como aconteceu durante sua presença no FICA. Jabor foi questionado em vários momentos sobre os temas mais diversos, principalmente sobre o futuro do Brasil (em um domingo de manifestações por todo o país).

“O Brasil é um mistério. Ninguém sabe o que vai acontecer. Nós estamos diante de um grande desafio. O Brasil não é as cachoeiras, os rios, as florestas. O Brasil é uma região interna do pensamento da gente.”

Para ele, o que está havendo no Brasil atual, em meio a esta grande crise, este escândalo que a gente assiste, é uma coisa importante. “A partir deste momento angustiante e tenebroso que o Brasil está sofrendo, ele está recebendo uma mutação histórica. Claro que não há parto sem dor. O Brasil está sofrendo um parto”, completa.

“Eu nunca na minha vida imaginaria que o presidente da Camargo Correa pudesse ir em cana, ou o presidente da Oberdretch , dono da maior empreiteira do Brasil. Então, isso é novo. “

Jabor se divide entre uma visão pessimista e uma otimista: “O perigo é que isso que está acontecendo com o país seja um retrocesso à modernização do sistema administrativo, coisa fundamental para uma posição moderna, uma visão de um pensamento ligado a competição , a eficiência, a valorização da sociedade mais que ao Estado. A importância das reformas que nos impedem de funcionar, desde a época da colônia. Como pessimista meu medo é que haja uma perda total das conquistas institucionais, como um carro que bate e tem perda total”. Em seguida segue a análise: “O otimista é que estejamos entrando em uma realidade muito mais rica, muito mais democrática e muito mais moderna.”

Diante todo este panorama, Jabor ressalta que o momento é introspectivo e de reflexão: “O Brasil agora vai para lugar nenhum, ele vai para dentro de si mesmo. Vai fazer uma autocrítica de si próprio. O Brasil estaá sendo repensado e isto deve levar um tempo.”

Cultura – Se na macroanálise para ele existe alguma visão positiva, quando o assunto é cultura e cinema, Jabor é essencialmente pessimista e crítico: “o cinema, o jornalismo, a música, tudo isso é muito influenciado pela situação do país, do mundo. É como o Chico falou uma vez ‘acabou a canção’. O Caetano não faz mais música porque as pessoas não escutam mais. Existe uma coisa no Brasil que eu acho meio impressionante que é uma assunção do mal gosto. O mau gosto agora é legal também.”

E uma vez mais Jabor usa o discutidíssimo e polêmico caso da morte do cantor goiano: “Este cara que morreu há pouco tempo, Cristiano Araújo, eu nunca tinha escutado falar nele e nem ninguém no Jornal da Globo; entretanto 50 mil pessoas foram no enterro do cara. Isto é um fenômeno paralelo. Existe um Brasil muito diferente daquele ‘nosso’. É uma coisa muito mais massificada do que a gente pensa”.

E sem pestanejar, sai da música e passa ao teatro. “Lá em São Paulo tem umas peças que são uma porcaria e são aplaudidas de pé, porque as pessoas já vão para o teatro querendo gostar. A massificação no Brasil é muito barra pesada.” E, claro, em seguida fala do cinema: “hoje em dia os filmes são feitos pra você não pensar. Olha a linguagem dos filmes americanos… os planos duram 3, 4 segundos… A ideia é de que as pessoas cheguem ao cinema para esquecer o mundo e ao sair comer uma pizza e dormir”, lamenta.

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