“Iluminar é antes de tudo proteger”

 em FICA

“A construção de uma imagem com a luz se dá em tantos patamares, em tantos níveis que é difícil eleger, decidir, escolher o caminho que você vai trabalhar.” Estas são palavras de Walter Carvalho, figura onipresente no cinema brasileiro, conhecido como excepcional diretor de fotografia – e uma das mais aguardadas presenças durante o FICA 2015.

Nesta manhã de sábado ele escolheu construir uma imagem sem a luz fluorescente do auditório, apagando-a. Surpreendeu ainda mais ao usar uma vela e raios de sol vindos da janela para explicar-se. Mostrou então a uma lotada plateia atenta, como a percepção é diferente com a luz fluorescente, a vela ou a luz natural. “Se eu usasse estas lâmpadas em casa, uma semana depois estaria fazendo análise”, brinca.

Walter Carvalho_foto Flavio Isac (6)

Foto: Flavio Isaac

Walter é sensível – não só à energia neon – mas a tudo a sua volta; o que se nota na sua forma de se expressar.  Ele explica que, a seu ver, “iluminar no cinema é antes de tudo proteger. Quando você ilumina o ator, obriga-o a multiplicar a sua capacidade de transmitir emoção. Com uma região de sombra, dá ao ator a possibilidade de criar um mistério; o desiluminar vem a proteger.” Walter exemplificou relembrando o filme Central do Brasil quando durante uma romaria toda a iluminação da cena foi feita por 400 velas.

Ele, que confessa sua paixão por retornar em locações de filmes – seus ou não – se diz feliz de estar na Cidade de Goiás, 28 anos após uma filmagem que fez aqui. Durante sua exposição na Mesa 3 do Fórum de Cinema com tema O cinema, a fotografia, o roteiro e o mundo, Walter falou muitas vezes com tom de nostalgia. “A fotografia não existe mais porque não se imprime mais fotografia. Estamos vivendo a era pós-fotografia.”

O Diretor argumenta que toda esta coisa de pré-produzir é discutível: “o cinema cresceu de uma maneira extraordinária. Todos os departamentos cresceram e continuaram crescendo. Mas a produção tem estado sempre aquém neste crescimento. A mentalidade da produção precisa ser revista porque está anulando conquistas do próprio cinema e já nem mais percebe isso.” “A vocação do nosso cinema está se perdendo”, analisa.

Outra vez, Walter apela à sensibilidade e faz um alerta: “Temos de estar muito atentos ao acaso, de forma muito esperta e aberta, senão ele passa por você, esbarra e você não percebe”, comenta exemplificando uma situação real que desencadeou a cena final do filme Terra Estrangeira, de uma maneira que nunca esteve no roteiro.

Walter prega também uma ruptura com o belo, “este imaginário impregnado na gente de que só é bom o que é bonito. Não se pode perseguir a beleza como um objetivo”. Segundo ele, a fotografia tem que expressar a narrativa do filme por encima de belas imagens. “No cinema, quando você diz ‘vai câmera’ é uma posição ideológica, filosófica. É uma atitude com a vida.”

Assim, de maneira quase poética, o Fórum conduzido por Walter e Ilda Santiago, Diretora do Festival de Cinema do Rio de Janeiro, foi se alongando sem perceber por três horas, passeou pela luz e sombras de quadros de Veermer e Rembrandt e terminou falando de uma cegueira generalizada. “As pessoas estão ficando cegas e não e por causa da poluição. Elas estão perdendo sua capacidade de comtemplar. Não tem mais tempo nem paciência para contemplar. Muitas vezes contemplar é refletir, é olhar uma foto, olhar um quadro e ver. A velocidade de ver as imagens e tão grande que você olha mais já não vê.”

 

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