Escassez de chuvas no Brasil ameaça queda brusca do PIB e de segurança alimentar

 em Sustentabilidade

Assim como o turismo de Ilha Solteira, cidade do noroeste paulista, tem sofrido com a crise hídrica, outros setores já sentem o impacto. Toneladas de peixes morrem por falta de oxigênio na água das pisciculturas. Residências ficam sem água potável porque as bombas não conseguem puxar com o volume em níveis tão baixos. A irrigação na agricultura é interrompida pelo mesmo motivo. Barcaças transportadoras de grãos estão paralisadas desde maio de 2014 por falta de profundidade no calado-d’água, o que torna necessário fretar caminhões, elevando os custos. Até mesmo termelétricas movidas pela cana-de-açúcar perdem força, pois a cana apresenta baixa produtividade por falta de chuvas.

“A cidade que nasceu para iluminar um país”, me diz Mozinho, pescador e proprietário de peixaria, de forma quase poética. Os moradores de Ilha Solteira têm muito orgulho dela e sabem do papel fundamental que exercem para o Brasil. A cidade foi planejada. Surgiu da necessidade de abrigar o enorme contingente de operários que chegaram para trabalhar na construção da usina. Na década de 1970, era a maior obra de engenharia do país e uma das maiores do mundo. Localizada às margens do rio Paraná, Ilha Solteira foi construída com base em uma hierarquia de moradias que segregava os trabalhadores de acordo com as categorias funcional e salarial. Os segmentos das residências partiam do nível 1, cerca de 100 m² – destinados a operários não especializados, ajudantes, serventes, vigias e zeladores -, até o nível 6, com 560 m² – reservados a encarregados de nível universitário, profissionais liberais como médicos, engenheiros, arquitetos, economistas, assistentes sociais. Havia três clubes sociais para entretenimento dos diversos níveis de trabalhadores. Os que eram classificados como 1 ou 2 não podiam frequentar as piscinas destinadas aos trabalhadores do nível 3 e do 4, e assim por diante. Mas o tempo anuviou tais barreiras.

Meu interlocutor fala pausadamente. Enquanto aguardo sua próxima frase, noto a luz do Sol invadindo a janela e inundando a sala de calor. “Meu vizinho perdeu 20 toneladas de peixe no ponto de comercialização”, conta Olair José Isepon, secretário do Departamento de Agronegócios, Meio Ambiente e Pesca de Ilha Solteira, enquanto enxuga com um lenço branco o suor que lhe escorre pela testa. “Num dia que esquentou bastante, sol forte, com tempo nublado e abafado, faltou oxigênio na água. Emprestei meu trator para ele soterrar os peixes na vala que a prefeitura fez.” A estiagem que se abate sobre as regiões Sudeste e Centro-Oeste do país desde meados de 2012 não dá sinais de trégua. “Precisamos que chova em Minas Gerais e Goiás, onde ficam as nascentes. Chover aqui não adianta”, explica.

O telefone toca. É do gabinete do prefeito. Olair e eu seguimos até a sua sala e somos recepcionados em um ambiente refrigerado, com suco de néctar de laranja. O prefeito, Bento Carlos Sgarbosa, é engenheiro e trabalhou nas obras de outras usinas. Esteve na Califórnia, onde acompanhou o drama da seca que atinge a região há quatro anos. Assim como os países que dependem dos royalties do petróleo, cidades-sede de hidrelétricas recebem grandes somas das usinas. E da mesma forma sofrem da “maldição dos recursos naturais”, também conhecida como o paradoxo da abundância. A economia de Ilha Solteira depende basicamente das receitas geradas pela hidrelétrica. O uso desses recursos permitiu investimentos em setores básicos do desenvolvimento, o que explica o alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) na cidade – 0,812. Por outro lado, levou a economia do município a uma acomodação e pouco incentivo a outros setores. Com a redução das atividades da hidrelétrica, o município irá arrecadar menos. “As perdas que estamos tendo na arrecadação hoje só saberemos de fato daqui a dois anos. Se a usina parar, seria uma catástrofe para nós. O município praticamente não teria receita. Educação, saúde, segurança seriam atingidas imediatamente”, analisa Bento Sgarbosa, que é também vice-presidente da Amusuh (Associação dos Municípios Sedes de Usinas Hidrelétricas). Ele me conta que no Brasil existem mais de 700 cidades que foram alagadas para que hidrelétricas pudessem existir.

Problemas na agricultura

A agricultura também sofre com a falta de água. Na cana-de-açúcar – quase uma monocultura na região – a perda de produtividade foi significativa. Não se chegou próximo ao valor de referência de 80 t/ha (toneladas de cana por hectare) na última safra. Algumas usinas trabalharam com uma produtividade de apenas 50 t/ha. É o que explica Fernando Braz Tangerino Hernandez, professor e pesquisador do Departamento de Fitossanidade, Engenharia Rural e Solos da Unesp (Universidade Estadual Paulista), enquanto, na grande tela do monitor, corre o cursor do mouse pelo Google Maps. “A usina de Santa Adélia, uma das maiores da região, é de cogeração, ela produz ao mesmo tempo álcool e energia. Ela queima bagaço e gera energia. Se ela dependesse somente da venda de álcool, certamente teria demitido funcionários”, diz, enquanto analisa os dados nos monitores que estão na parede do laboratório. Quanto mais falamos do tema, mais ele se empolga. “As usinas que não possuem cogeração estão em uma situação crítica. Temos 453 usinas de açúcar e álcool no país. Dessas, 83 estão fechadas ou em recuperação.”

Como se não fosse o bastante, ele levanta seu corpo de quase 2 metros para enfatizar que “o fato concreto é que os extremos estão cada vez mais frequentes. O seco está cada vez mais seco e as chuvas estão cada vez mais intensas e localizadas”. Ele fala com conhecimento de causa, com base no relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) de 2013. Esse estudo, realizado por 350 cientistas, prevê um cenário alarmante se os níveis de emissões de gases causadores de efeito estufa permanecerem altos. A agricultura e o setor de energia do Brasil poderão ser fortemente impactados, sob risco de queda brusca do Produto Interno Bruto (PIB) e até de segurança alimentar. Segundo o documento, a temperatura no Brasil pode aumentar de 3ºC a 6ºC até 2100. O país sofreria ainda mais com uma possível escassez de chuvas, como acontece agora. “Temos que desenvolver a resiliência e aprender a conviver com isso. Recompor as matas ciliares, plantio direto, conservação do solo, interceptação da água das chuvas, proteger nossas nascentes. Precisamos de árvores!”, exclama o professor e bate na mesa.

Onde há riscos, há também oportunidades

A expressão de tranquilidade de Antonio Ramon do Amaral Neto é de quem soube se preparar para a crise. Sua empresa produz hoje 10 toneladas por mês de peixe e as obras estão aceleradas para que até o final de 2015 esse valor chegue a 25 toneladas. “Tomamos decisões estratégicas antes da seca”, fala ao se recostar em sua cadeira de couro e buscar o controle do ar-condicionado. “Tive colegas empresários que perderam 70% da produção. Por sorte eu havia transferido minhas instalações para um local novo, com maior profundidade.” Ele é sócio-diretor da Brazilian Fish, empresa que atua desde o cultivo de peixes até a embalagem de filés que chegam às prateleiras dos supermercados. “Há uma forte demanda e pouca oferta no mercado de tilápias.” Com a seca, os preços dispararam. Somente entre outubro e novembro houve dois aumentos de preço. “Em breve ficará tão caro que o brasileiro não poderá consumir filé de tilápia”, completa.

Sorte que não agraciou o produtor Fabio Brandão, da Piscicultura Guanabara. Ele perdeu 60% da sua capacidade de produção e os sócios-investidores cancelaram 450 mil reais que estavam previstos para serem investidos em 2014.

Percebo, afinal, essa é a / Pasárgada de Manuel Bandeira / oculta em oito milhões / de metros cúbicos de água / Eis aí meus caros amigos: / a vocês uma boa sorte / e muito progresso e alegria. Carlos Drummond de Andrade escreveu em 1973 o poema Os Submersos em homenagem ao município de Rubineia, 80 quilômetros mais ao norte de Ilha Solteira. Alagada pelas águas durante a construção da hidrelétrica, a cidade levava em suas ruas nomes de famosos poetas brasileiros. Menos poético, Brandão me responde quando pergunto quais as expectativas para o próximo ano. “Medo.”

via Planeta Sustentável

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