Em defesa da casa comum: A encíclica do papa 60 dias depois

 em Comportamento, Política, Sustentabilidade

via Época

Há cerca de dois meses, o Papa Francisco surpreendeu o mundo com o lançamento de uma Encíclica que, ao contrário das cartas emitidas anteriormente por seus numerosos pares, destina-se não apenas aos religiosos, clérigos ou leigos, mas ao mundo em geral, falando a crentes e agnósticos, anônimos e poderosos. Apesar da controvertida fortuna crítica neste curto período de tempo – da postura analítica da revista Time à denúncia de “raiva ativista” do The Guardian, passando pelo ceticismo do Washington Post – ela tem potencial de tornar-se um “texto clássico” de desenvolvimento sustentável, aos moldes dos célebres Relatório Brundtland, das Nações Unidas (1987) e Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore (2006).

Parece um ato premeditado para marcar o processo de nova apresentação dos princípios católicos ao mundo contemporâneo por que passa o Vaticano, após a eleição desse jesuíta latino-americano. Um padre carismático, apaixonado, um pouco pop, mas, talvez justamente por isso, grande comunicador. Parece também uma ruptura em relação à orientação anterior, de Paulo VI a Bento XVI, incluindo o grande João Paulo II. Parece sim, mas não é.

Bento XVI foi um papa introvertido, erudito, péssimo comunicador, menos dado à ação política que lhe era devida como chefe de Estado que à catequese, na qual discorria semanalmente sobre a vida de santos e doutores da igreja, como a notável Hildegard von Bingen, evitando abordar os temas quentes do momento.

Entretanto, esse pensador e formulador da Igreja, mais próximo da eclesiologia que da teologia, pode ter sido tudo, menos ingênuo. Em um texto de 1956, Ratzinger analisou o pensamento de Ticônio, teólogo do século IV, que influenciou decisivamente Santo Agostinho. Como observa Giorgio Agamben, ao analisar Ticônio Bento discorre sobre a dualidade em que vive a igreja, buscando conciliar poder espiritual (autoctas) e poder temporal (potestas), o eterno pêndulo entre legitimidade, representada pelo direito natural, e legalidade, representada pelo direito positivo.

Sua renúncia, a par dos motivos apresentados – por sinal os mesmos de outro célebre renunciante, o papa Celestino V, cuja história, transcorrida no final do século XIII, Bento conhecia e reverenciava –, se assenta nessa dicotomia, entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, o poder espiritual/moral e o poder político e econômico, a Igreja santa e pecadora, a escatologia e o imediatismo, o Cristo e o anticristo. A vitória, ainda que momentânea, do lado sombrio das instituições deprimiu o Papa pensador, levando-o à renúncia.

Com estilo e motivos muito distintos, Francisco está operando no mesmo intervalo. Ao tratar da relação do homem, e sua economia, e o meio ambiente, invoca a necessidade de convivência entre interesses aparentemente opostos. Os fundamentos teológicos para a preservação do planeta são muito distintos, mas complementares aos argumentos do Relatório Brundtland para a preservação do nosso futuro comum (desdobrado no documento final da Rio + 20, intitulado O Futuro que Queremos). E, obviamente, não foi fortuita a incorporação da expressão “nossa casa comum” no texto preambular dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a serem aprovados na próxima Assembleia Geral da ONU no mês que vem.

A Encíclica, verdadeiro documento de soft law, escrita por alguém que detém ao mesmo tempo a legitimidade do poder espiritual e a legalidade do poder secular de um chefe de estado monárquico, porém eletivo – único exemplo no mundo –, possui uma força ímpar. Esperemos que seus efeitos sejam comparáveis à détente provocada pela Encíclica Pacem in Terris de João XXIII (1963), lançada no auge da Guerra Fria, outro momento crítico no qual a humanidade, sempre vivendo perigosamente, parecia também caminhar para o apocalipse.

Tratar integradamente aspectos ambientais, sociais e econômicos tem sido, há décadas, o desafio hercúleo dos defensores da sustentabilidade. E a convivência harmônica entre homem e natureza constitui a própria essência de organizações globais como o WWF (World Wild Fund), como destacou em artigo recente sobre a Encíclica a presidente de seu conselho internacional, Yolanda Kakabadse. O manifesto de Francisco atinge plenamente esse objetivo.

Uma coisa é certa, a COP 21 não será a mesma depois da publicação do manifesto papal sobre o cuidado com a casa comum. Que todos nós, cidadãos do planeta, ecologistas ou não, leiamos esse documento com um duplo olhar e sejamos inspirados pela densa doutrina de Bento e pela leve, porém séria, alegria de Francisco.

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