Como treinar agentes de saúde melhora o desempenho de crianças na escola

 em Comportamento

Via: Época

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro, no Amazonas, crianças estão chegando à escola mais extrovertidas e confiantes para aprender e participar das atividades propostas pelos professores. Mostram coordenação motora avançada e fazem mais perguntas que parte de seus colegas. Os professores logo perceberam a diferença e creditam o avanço ao início do Projeto Primeira Infância Ribeirinha.

A iniciativa é uma parceria entre a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (Susam) e o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Visa a dar atenção a crianças durante a chamada primeira infância – que vai do primeiro mês de vida até os seis anos. É um período determinante para o desenvolvimento de capacidades de aprendizagem e socialização e que dependem, entre outros fatores, de estímulos e cuidados dos pais. O projeto completou dois anos e as primeiras crianças atendidas estão, agora, entrando na escola, provando sua eficácia.

Nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, cuidar da saúde e educação de crianças é um desafio. São regiões de enormes extensões, onde há dificuldades de acesso e logística. Escolas são poucas e postos de saúde e médicos, muitas vezes, não existem. Os profissionais nem sempre têm a instrução suficiente para suas tarefas. Para ser atendido em hospitais ou postos, é preciso viajar por dias em barcos até os municípios próximos.

O foco do projeto, portanto, foi aprimorar o trabalho dos agentes comunitários de saúde. São profissionais contratados pelas prefeituras municipais para acompanhar as famílias e observar a necessidade de enviá-las a hospitais e consultas médias. Como o agente não tem formação em saúde, não pode examinar ou medicar ninguém. Seu objetivo é instruir com informações que ajudem na prevenção de doenças e acidentes.

O projeto está nos municípios de Novo Airão, Manacapuru e Iranduba e promove oficinas de capacitação, atividades lúdicas e treinamentos para que os agentes entendam melhor sua função e a exerçam com mais conhecimento. Segundo Eduardo Taveira, superintendente técnico-científico da FAS, há relatos de agentes que diziam ter vergonha de ir às casas. Então, o projeto investe também em autoestima e comunicação. “A capacitação melhorou muito nosso trabalho. Antes, a gente chegava às casas e não tinha assunto para conversar. Agora, sabemos o que perguntar e ensinar, como noções de higiene”, diz Marinete Miranda Pontes, moradora da Comunidade Santo Antônio.

Pais e mães são acompanhados desde a fase pré-natal, quando os agentes os preparam para a chegada do bebê. Nessa fase, falam sobre a importância do aleitamento materno e até incentivam que eles conversem com o bebê ainda na barriga. Depois do nascimento, os profissionais mantêm as visitas periódicas até que as crianças completem seis anos de idade. Durante esse processo, dedicam-se a ensinar os pais sobre cuidados de higiene, como a escovação dos dentes, e a importância da vacinação. “Para os povos ribeirinhos, o acesso às vacinas é complicado, pois precisam se deslocar até os postos de saúde. Os pais sabem da obrigação da vacina, mas não entendem bem a função disso. Cabe ao agente mostrar que é um benefício que fará muita diferença na vida de seus filhos”, afirma Rhamilly Amud, coordenadora do projeto.

Outro desafio dos agentes é educar pais e filhos quanto a questões nutricionais. A presença de alimentos industrializados está aumentando cada vez mais nessas comunidades. E estão substituindo alimentos naturais que são produzidos por ali. “Isso está gerando um problema de desnutrição grave nas regiões ribeirinhas. É preciso resgatar os alimentos tradicionais que estão nos quintais dessas comunidades amazônicas”, diz Taveira.

Agentes receitam – sem contraindicações – brincadeiras, conversas, músicas e danças entre pais e filhos. A comunicação é um dos elementos considerados mais importantes para o desenvolvimento cognitivo e social desses pequenos cidadãos. As mães fazem oficinas de construção e costura de brinquedos, que ajudam a criar laços de carinho entre as famílias. Rhamilly conta que algumas mães não achavam importante separar um tempo do seu dia para brincar com os filhos. E graças aos ensinamentos dos agentes, começaram a apreciar o tempo que passam brincando juntos.

Desde o início do projeto, cerca de 280 crianças e 180 famílias foram atendidas pelos agentes comunitários de saúde na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro. Os índices de doenças diminuíram nas comunidades e as cadernetas de vacina estão em dia.

Ainda em fase piloto, o projeto deve passar por um balanço até o final do ano. Segundo Taveira, o objetivo é que a experiência se torne as bases de uma política pública, que receba apoio do governo federal e municipal para chegar a outros tantos municípios espalhados pelos extensos rios amazônicos. “As políticas públicas para a Amazônia precisam ser desenhadas de acordo com as características dessa região, que é peculiar e diferente do Brasil que se acessa por estradas de asfalto. Há um país em meio ao rios”, diz.

Essas crianças são os futuros responsáveis pela proteção de uma das maiores biodiversidades do mundo. Cuidar dos primeiros anos de suas vidas é só um pouco do que se deve fazer por elas.

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