Artesanato de luxo

 em Comportamento, Goiás

Via Jornal O Hoje

A matéria-prima do Cerrado goiano inspira as joias típicas de colecionadores pela raridade e pesquisa. Dá para imaginar fibras de guariroba incluídas de forma preciosa em peças exclusivas e valorizadas? A designer Adeguimar Arantes, com 30 anos de atuação, faz algo inusitado, pois mescla a simplicidade do artesanato manual com o luxo da joalheria que nasce de gemas e metais preciosos, flores, frutos, sementes, cipós e outros elementos originados do bioma.

Anéis, pingentes, colares, braceletes, brincos, broches e outras peças únicas criados pela designer demandam tempo e um trabalho primoroso até o resultado final, visto que não é utilizado qualquer tipo de fundição. “São joias que têm liquidez”, garante Adeguimar. A artista demonstra intimidade com o cerrado. “Nasci e cresci em numa área rural com uma grande reserva de vegetação e meu pai, um homem sensível, nos ensinou, por exemplo, que um buriti sinaliza a água, que os ouriços (porta-sementes) são resistentes ao fogo, os períodos de dormência, a floração e a frutificação, e a colher frutos. Creio que tantos aprendizados renderiam facilmente um livro”, afirma.

Atualmente, a designer se divide entre Caldas Novas (GO), onde mora, e a cidade de São Paulo (SP), onde mantém uma loja em sociedade com a filha, Ioná Arantes, designer de moda. Na cidade localizada na região sul de Goiás, Adeguimar ainda consegue boa parte do material que usa. No sítio da família cultiva, por exemplo, as madeiras que vão integrar algumas de suas criações. Outras matérias vêm de trocas com artesãos goianos e outras ainda foram coletadas ao longo dos anos formando um vasto plantel de sementes, cabaças, fibras etc.

Toda essa riqueza é acoplada, parte por parte, ao metal reciclado. “Fomos os primeiros joalheiros brasileiros a divulgar o uso deste metal em nossas joias, em 2002. Isso nos custou muito; qualidade de um produto era diferencial de mercado, mas já o fazíamos desde 1985, quando nós mesmos, de forma precária, já purificávamos nosso metal com uma técnica chamada enquartação”, lembra. O processo consiste em adicionar quatro vezes mais cobre ao peso do ouro a ser reciclado e, em seguida, faz-se a queima com água régia, uma mistura com ácidos.

Não é simples imaginar que recipientes metais no lixo podem representar ouro ou prata. “Os metais permitem ser purificados e retomam facilmente seu teor de pureza original podendo ser trabalhado infinitas vezes”, detalha ela. Conforme a designer, há hoje, inclusive, empresas especializadas que se dedicam a “garimpar” no descarte de eletroeletrônicos e reciclam com certificação e garantia por meio de documentos fiscais para os adquirentes dos metais.

Os acessórios criados pela goiana são primorosamente planejados. “A primeira consideração é sempre a estética, depois ergonômica, o conceito e tema proposto da obra, o design, e por fim, a relevância da joia executada o que, normalmente, é o elo emocional com o cliente, pois lido com pessoas que de fato não compram por necessidade”, observa. Alguns elementos naturais têm durabilidade de décadas. “A função maior dessa atividade conceitual é multiplicar a cultura regional, não são joias para uso cotidiano, mas algo que se deve colecionar pelo valor”, reforça.

Restrito
Com a grife que leva o seu nome consolidada no mercado nacional e no exterior, Adeguimar Arantes lançou, recentemente, um clube fidelizado. Ela produzirá finíssimas joias registradas, além de acessórios como calçados, xales, lingeries e até objetos de decoração, sob encomenda para cerca de 60 pessoas. O feitio continuará sendo o manual, que dá a exclusividade tão valorizada ao design. O grupo de privilegiadas clientes não é fruto de escolha aleatória. O projeto foi pensado e amadurecido durante alguns anos, segundo relata.

“É natural que nosso trabalho se ajuste a clientes que nos acompanham desde o início, seus filhos, netos e até bisnetos. É um mimo da marca e também nosso limite em proporcionar-lhes o luxo pela escassez para permanecermos no modo tradicional de feitio”, justifica. Da coleta da matéria-prima à embalagem exclusiva, apenas Adeguimar tem acesso à joia. “Qualquer pessoa pode comprar, mas encomendar é para clientes que conhecemos, pois é um método muito dispendioso”, ressalta.

A designer não considera suas criações algo destinado a uma fatia abastada de consumidores. “Você pode ganhar pouco, mas se deseja ter um anel de brilhantes vai poupar para um dia ter e de determinada grife porque se identifica”, afirma. Segundo ela, seu público é composto de pessoas que desejam algo autoral, único, que respeita o Planeta e representa um conceito de obra de arte. O design de joias praticado por Adeguimar tem por objetivo somar-se às ações já existentes de preservação do bioma. “Temos conseguido dar uma visibilidade à causa com nosso trabalho, indiscutivelmente. Amo a joalheria e o bioma, os dois andam juntos”, finaliza.

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